O FILME




Peter Ketnath encenando com os Canela

Nas gravações em áreas indígenas a equipe contou com o ator alemão Peter Ketnath (“Cinema, Aspirinas e Urubus”, de Marcelo Gomes) que faz o personagem NIMUENDAJÚ.

A vivência da equipe nas aldeias Apinayé e Canela/Rankokamekra, povos Timbira do Tocantins e Maranhão, respectivamente, trouxe novas experiências dramáticas que foram incorporadas ao filme, nascidas do encontro de universos culturais tão distintos.



SINOPSE




Curt Unckel desembarcou em 1903 no porto de Santos, aos 20 anos, vindo da Alemanha. Ao contrário de seus conterrâneos que seguiram para o sul do país, embrenhou-se nas matas do oeste paulista, quando conheceu e passou a conviver com os Apapocúva-Guarani.

Muendajú-ma-nderey! Nandereyiguande! NandévanderenoiNimuendajú ! 
Cova-mandeangá !
( Muendajú é teu nome ! Tu fazes parte da nossa tribo ! 
Os Guarani te chamam Nimuendajú !)


Num ritual comovente, Curt foi batizado por eles como NIMUENDAJÚ – “aquele que soube abrir o seu próprio caminho neste mundo e conquistou o seu lugar”. Ao acompanhar uma família Guarani proveniente do Paraguai, Curt Nimuendajú vivencia com eles um episódio dramático da busca frustrada pela Terra Sem Mal – o paraíso Guarani – que os índios pensavam atingir atravessando o mar, fazendo jejum e entorpecendo o corpo por meio da repetição exaustiva de cantos e danças. Sobre este e outros eventos, Nimuendajú produziu um ensaio referencial As lendas da criação e destruição do mundo como fundamento da religião dos Apapocúva-Guarani.

Aos 45 anos encontramos Nimuendajú morando em Belém (PA), casado com Lila, dona de casa e lavadeira. Neste período, o etnólogo descortinou um novo e estimulante campo de estudos entre os Timbira: os Canela e os Apinayé. Em ambos, Nimuendajú foi batizado e também se casou. Entre os Canela com Kentapí, entre os Apinayé, com Iretí. A problemática da abordagem científica por intermédio destes laços é objeto de conversas de Curt com seu amigo Carlos Estêvão, também etnólogo e diretor do Museu Goeldi, do Pará. Carlos Estêvão é o principal interlocutor com quem Curt divide descobertas, desabafos em vista da falta crônica de recursos, receios quanto à sobrevivência destes povos, cada vez mais acossados pelos “brancos” na disputa de terras, no comércio ilegal de cachaça: “eles se dissolvem literalmente no álcool”, constatou para o amigo numa carta, em que também conta os escândalos que fez nas duas aldeias questionando veementemente os chefes e guerreiros indígenas sobre o uso da cachaça. Nimuendajú lutou por estes povos com as armas de seu tempo, como foi o caso do mapeamento do território Canela, com vistas a seu reconhecimento pelo governo. Suas ações contrariaram os latifundiários da região, com os quais não media palavras em bate-bocas o que lhe valeu uma surra dos capangas da família Arruda.

Patrocinado por Robert Lowie, renomado etnólogo da Universidade da Califórnia, Curt parte para uma visita às coleções que enviou para a Europa (Museus de Gotemburgo, Leipzig, Dresden, Berlim, Hamburgo, Stuttgart). Aproveita para retornar pela primeira vez a seu país de origem e rever a irmã, Olga, em Jena, onde tem reminiscências de infância e aversão ao avanço do nacional-socialismo, antes da eclosão da 2ª Guerra.

Apaixonado e temperamental, pesquisador dedicado e reconhecido nos meios acadêmicos do Brasil e exterior, Nimuendajú se viu, aos 60 anos, proibido por razões médicas de voltar a campo. Neste período produziu seu Mapa Etno-Histórico Brasileiro, até hoje reconhecido como o mais importante documento produzido sobre o tema por ultrapassar a mera localização geográfica dos povos, informando também sobre suas rotas migratórias, existência ou extinção, localização em relação à cabeça dos rios e outros dados importantes, coroando 40 anos de estudos sobre povos indígenas brasileiros. Partiu em seguida para a sua última viagem ao território dos índios Tikuna, no Alto Solimões, quando morreu em circunstâncias ainda misteriosas.


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Curt Nimuendajú, 1945, 
ano de sua morte



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Curt Nimuendajú, 1913, 
nos jardins do Museu Nacional, RJ



Abaixo, carta recriada para cena do filme, a partir de trechos originais de Curt Nimuendajú.



Interior de Mato Grosso, 1912.
Querida Olga, esta carta vai por mão de índio.
Somente agora alcancei o Porto Tibiriçá, a fim de ver se havia chegado algum recurso do Serviço de Proteção ao Índio. Ainda não vi nenhum tostão furado... Maninha, depois que fui admitido no Serviço, a minha vida tem sido uma série ininterrupta de viagens, estou sempre me intrometendo com os índios no oeste e no sul do Brasil. Estou empenhado neste momento em reunir na reserva Araribá, no interior de São Paulo, as últimas hordas dispersadas dos índios Guarani, estes que são no Leste enaltecidos na literatura nacional e declarados heróis de novela, vêm sendo no Oeste desprezados e maltratados como bicharada miserável. Este é o último momento, a última hora. Consegui, com muito esforço, chamar a atenção do Serviço para os meus irmãos de tribo. Araribá foi, então, convertida em asilo para os Guarani dispersos entre São Paulo, Mato Grosso e Paraná, formando hoje seu centro principal.
Estou na companhia de um deles,  Miguel Xiricorá. No meio do caminho para cá nos banhamos num trecho do Rio Paraná, mas erramos a volta na escuridão, de maneira que pousamos num lugarzinho mais ou menos enxuto, mas tenho receio que ambos apanhamos maleita neste pouso. Mas, não se preocupe, já providenciei os remédios e não sou homem de dar muita corda para doenças...Você sabe como gosto desta vida no sertão!
Tenho sempre vivido como um índio entre índios ...
Agora mesmo preparo uma nova viagem, desta vez para um lugar que não existe, pelo menos para os cristãos: A Terra Sem Mal, em outras palavras: o paraíso Guarani.  O grupo vem viajando desde o Paraguai. É o que restou de um grupo bem maior que se reduziu no caminho até o litoral paulista. Chegaram a enterrar uma criança ontem.  Não falam nada de português e eu não poderia deixá-los entregues à sua própria sorte...
Pedi autorização ao Serviço, peguei meu maracá e resolvi acompanhá-los na travessia à Terra Sem Mal. Atrai-me a idéia de ver de perto este epílogo do grande drama das migrações dos Guarani.
Um saudoso abraço de seu irmão aventureiro, CURT, agora, NIMUENDAJÚ.