LINGUAGEM

Estudo: os Canela chegam à Barra do Corda.

NIMUENDAJÚ é um desenho animado, que segue os princípios básicos da animação tradicional, porém utilizando as ferramentas oferecidas pelos novos softwares. Com uma boa base de desenho é possível realizar uma obra de carpintaria relativamente simples, como foi o processo de produção do filme VALSA COM BASHIR, de Ari Folman, (Israel/França, 2008) que lançou mão do programa Flash, o que proporcionou agilidade e economia na produção dos desenhos e inaugurou uma maneira mais “doméstica” de se trabalhar a animação para longas-metragens: com equipe pequena e orçamento pequeno. Este novo arranjo tem possibilitado a emergência de projetos experimentais marcados pela inovação temática e estética, atraentes para o público jovem e adulto.

     Corrida de Toras dos Canela/Rankokamekrá. (Aldeia Escalvado. MA) Foto: Toninho Muricy.

Adotamos método de realização similar ao do VALSA, o de filmar e depois animar, com uma diferença: não nos detivemos em estúdio, mas, filmamos, in loco, as aldeias Apinayé e Canela. Rituais, cotidiano e cenas do filme foram gravados durante os meses de julho e agosto de 2012.  



Peter Ketnath interpreta Curt Nimuendajú entre os Canela/Rankokamekrá. (Aldeia Escalvado. MA) Foto: Toninho Muricy.

O ator alemão que representou Nimuendajú, Peter Kethnet (“Cinema, Aspirinas e Urubus”, de Marcelo Gomes) nos acompanhou nesta empreitada, imiscuindo-se entre os dois povos visitados, recriando situações do roteiro mediante a experiência do contato, o que enriqueceu grandemente o filme.

CONCEITO VISUAL


NIMUENDAJÚ apresenta uma riqueza de fontes a serem exploradas. Foi feita intensa pesquisa bibliográfica e iconográfica, além de contar com a consultoria de Elena Welper, antropóloga e pesquisadora com mestrado e pós-doutorado sobre Curt Nimuendajú. Curt Nimuendajú deixou um legado ricamente “ilustrado", fotografias de cada mínimo detalhe do cotidiano nas aldeias. Estão catalogados retratos, tipos de vestimentas, enfeites, cortes de cabelo, pinturas corporais, armas, cestaria, tecelagem, instrumentos musicais, músicas (pauta e letra), brinquedos, entre muitos outros objetos e situações. São centenas de fotografias compiladas em livros e em vários museus. Grande parte deste acervo está depositada no Museu Nacional, UFRJ / Centro de Documentação de Línguas Indígenas (CELIN) - órgão que dispensou cuidadosa atenção a este projeto.

Aplicação do acervo de fotos de Curt Nimuendajú na composição de acessórios para personagens Canela/Rankokamekrá. Imagens retiradas do livro The Eastern Timbira, de Curt Nimuendajú.

Somadas às fotografias, a extensa produção escrita de Curt Nimuendajú deu estofo a criação das cenas, diálogos e offs do filme. Além do conteúdo, a plasticidade de suas anotações em cadernetas de campo, em cartas escritas a mão e a máquina datilográfica - companheira inseparável- foi mais um recurso expressivo usado.
Para exemplificar, Curt Nimuendajú percorre à cavalo e à pé aldeias da região dos Timbira, no Maranhão. Essa peregrinação deve ser mostrada com recursos gráficos animados: aparição gradual dos nomes e localização dos rios, cidades, referências topográficas etc, ou frases compondo graficamente a tela, escritas em português, alemão ou em alguma língua indígena. 
Nimuendajú construiu sua etnografia, produzindo diários, cartas, ensaios, monografias, mapas, desenhos, fotos, enfim, um conhecimento científico apoiado numa enormidade de referências que serão transformadas em ferramentas narrativas. 

Povo Canela/Rankokamekrá. Foto: Curt Nimuendajú (1930).



Mapa etno-histórico do Brasil e regiões adjacentes (1944).

O coroamento de seu trabalho é o célebre “Mapa etno-histórico”, feito à mão, num trabalho artesanal minucioso para representar 1.400 povos espalhados pelo Brasil, subdivididos em 40 famílias lingüísticas, em 41 cores e tons. No filme, a partir de uma “folha em branco”, irão suceder-se linhas, cores, nomes dos povos, rios, movimentos das migrações... criando, paulatinamente, uma sinfonia visual, nota a nota, elemento por elemento.


DIREÇÃO DE ARTE


Egon Schiele – Auto-retrato.

Elegemos como norte o repertório estilístico de Egon Schiele, artista austríaco (1890-1918), caracterizado por imprimir em suas figuras humanas e paisagens um tratamento ao mesmo tempo incrivelmente elaborado e sintético. Seus enquadramentos, formas, linhas e gama cromática seguem o mesmo tipo de elaboração elegantemente econômica e precisa. Seus personagens são dotados de um grafismo intenso. As linhas são a base de sua contrução imagética.

Os desenhos de personagens, cenários e objetos, em NIMUENDAJÚ, terão contorno sucinto e poucas cores, o que contribuirá para que a produção seja econômica e ágil.

Como em Egon Schiele, queremos usar os cenários detalhados apenas em partes: o que está em evidência mostra-se, e o que está em segundo plano tem tratamento sugerido apenas.


STORYBOARD



Storyboard: Vaqueiros, liderados por um membro da família Arruda, chegam montados à cavalo.

Storyboard: Curt Nimuendajú, junto a um grupo de índios Canela, pergunta o que eles querem naquelas terras.

Storyboard: membro da família Arruda ameaçaNimuendajú e os Canela.

Storyboard: Curt toma a frente e diz que, caso algo aconteça, os Arruda terão que prestar conta na justiça.


SOM


O som traz uma perspectiva documental ao filme, uma vez que os sons ambientes, diálogos e cantos rituais foram gravados nas aldeias.  

A voz em off de Curt Nimuendajú é uma constante, às vezes em português, às vezes em alemão. Em alguns diálogos, ele ainda fala em Guarani e arranha algumas expressões em Canela e Apinayé. À medida que a cena se desenrola, o off dá lugar à ação pura. Outras vezes, o off é sublinhado, no sentido de que as frases, palavras ou letras se transformam em elementos gráficos. 

Para os povos Timbira, como os Apinayé e os Canela/Rankokamekra, os cantores são altamente considerados. No vídeo acima, o cantor e ator do filme, Zé Cabelo, faz uma demonstração para a equipe.