CURT NIMUENDAJU


Estudo: 1903, o jovem Curt chega ao porto de Santos.

Curt Nimuendajú nasceu em Jena, em 1883. Chegou ao Brasil em uma leva de imigrantes alemães, no porto de Santos, em 1903. O filme se inicia em 1905, quando o jovem Kurt Unkel passa a viver entre os Guarani, no interior de São Paulo e é batizado “Nimuendajú”.

São muitas as facetas, algumas díspares, que conformam o perfil de Curt Nimuendajú. Ele apresenta extrema paciência para extrair informações dos índios, é capaz de ficar dias a fio para conseguir registrar algumas palavras de algum vocabulário em vias de extinção e nenhuma paciência para procedimentos burocráticos ou que exijam traquejo social. Apesar da desenvoltura e satisfação com a vida no sertão, com os índios, se comporta de forma retraída de maneira geral:
Ficou o dia inteiro absorvido com a bússola estudando o rio, de modo a provocar comentários dos outros passageiros, que diziam: ‘Que homem esquisito!’ Só depois de escurecer, é que ele consentiu em conversar. E toda vez que a lancha parava para os passageiros pernoitarem em terra e preparar na praia o acampamento coletivo, Nimuendajú informava-se da hora da partida, afastando-se para dormir sozinho e só reaparecer no dia seguinte pontualmente e com a barba feita.  (Relato relato do frei dominicano Pedro Secondy, companheiro de viagem, 1940) 

Curt Nimuendajú, ao centro, foto retirada do livro "Cartas do Sertão" - Organização Thekla Hartmann, 
Museu Nacional de Etnologia, Ed Assírio & Alvim

Apesar de extremamente erudito e de alimentar com informações etnográficas e lingüísticas, através de cartas, uma rede extensa de cientistas/pesquisadores pelo mundo inteiro, mantem um relacionamento acanhado com o meio acadêmico. Nunca aceita dar aulas nas universidades,  pois diz que o que ele aprendeu foi sentado numa esteira conversando com os velhos das tribos. Por causa dessa postura e por ter seus métodos próprios de pesquisa, que incluem sua integração completa entre os povos, muitas vezes sendo batizado e casado, Nimuendajú é simultaneamente respeitado e marginalizado. Tem uma esposa “oficial” em Belém e outras em aldeias, além de amigas que servem de informantes e talvez amantes. Curt, mantem correspondência ou algum contato constante, com todas elas, cuidando de mandar-lhes presentes e mantê-las amparadas, enquanto dure o relacionamento. Na maioria das vezes, manifesta uma postura abnegada, capaz de suportar grandes adversidades e privações, entretanto, em alguns momentos, queixa-se quase em tom melodramático: (...) o conhecimento do fato de que a nação em que vivo e trabalho há 40 anos, me trata a priori como inimigo, acumulando-me de infâmias, calúnias e insinuações, barrando-me todos os meios de subsistência (...) deixou-me numa situação insustentável e vergonhosa de uma vida perdida... (carta a um colega etnólogo)

Enfim, Curt Nimuendajú vive e sente com todas as suas forças e, inegavelmente, é extremamente solidário com os povos com os quais mantem laços.



Como Curt Nimuendajú recebeu um nome Apinayé

Já em 1928, decidiram os Apinayé receber-me na tribo. Isto se fez, adotando-me como seu filho, uma velha índia, Pembre, mãe do chefe de Bacaba, José Dias Matúk. Em conseqüência fiquei pertencendo à metade Kolti, como ela e Matúk, e o irmão de Pembre, Tamgaága, devia ter-me transmitido os seus nomes. Mas ele não pode (...), ela mandou-me transmitir o nome Tamgaága pelo conselheiro Ngôklua. Só mais tarde chegaram diversos índios de Gato Preto para visitar-nos, entre eles aquele irmão de Pembre, meu tio materno, Tamgaága, que eu ainda não conhecia pessoalmente. Enquanto os outros visitantes me procuravam para cumprimentar, Tamgaága mandou-me dizer que fosse ter com ele. Fui, e ele me perguntou com muita formalidade, como me chamava. Dei o meu nome Tamgaá-tí, ao que respondeu: “Tamgaá-tí sou eu! Tu és meu sobrinho! Eu vim agora lhe transmitir todos os meus nomes!” À tarde fomos ambos à casa de Pembre, onde nos enfeitaram. Pintaram nossos pés com urucu, grudando-nos, com látex, listas largas, com as beiras dentadas, de lã de patí, sobre o corpo e os membros. A isto juntaram os peitorais, as ligas de penas nos joelhos e nos tornozelos e os outros enfeites comuns. Doze homens formaram na praça uma frente , com número igual de mulheres atrás deles. Um cantador cantou diante desta fileira dupla, com voz surda e acompanhamento do seu maracá. Os dançadores saíram da linha, um de cada vez, dançando na frente dela, os homens com as armas , as mulheres com as mãos vazias levantadas para o alto. Meu tio, um moço que tinha igualmente o nome de Tamgaága, e eu, estávamos em pé frente aos dançadores. Depois fomos, os três na frente e os dançadores atrás, à casa de Pembre onde, perto da porta, no interior da casa, estava estendida uma esteira no chão sobre a qual tomamos posição, eu e o moço, lado a lado, com o rosto virado para o oriente e o meu tio na nossa frente. Devagar e solenemente este pronunciou então as cinco formas de nome Tamgaága: “Tamgaága-ti! Tamgaága-glú’ti! Tamgaága-rerégti! Tamgaága-rãtém-ti! Tamgaága-rái-ti!" Com isto findou a cerimônia.

Os Apinayé, de Curt Nimuendajú



Curt Nimunedajú vestido com um Apinayé.
Fonte:  Curt Unckel Nimuendajú: Um capítulo alemão na tradição etnográfica brasileira,
Elena Monteiro Welper. Rio de Janeiro: UFRJ/ PPGAS-.MN. 2002



Como Curt Nimuendajú recebeu um nome Canela

Eu recebi o meu nome Kokaipó pela maneira seguinte: o chefe mais graduado dos Ramkókamekra, Major Delphino Kokaipó já ha alguns anos havia falecido durante uma viagem, antes que tivesse podido transmitir o seu nome a um seu parente masculino em linha materna. Como também ninguém estivesse 'guardando' o seu nome, este estaria extinto, o que era considerado uma lástima, por ter sido aquele seu último portador geralmente bem quisto. Algum tempo depois da minha chegada entre os Ramkókamekra, resolveram os chefes e conselheiros adotar-me na tribo, o que ainda não haviam feito com civilizado nenhum. Aproveitaram o caso excepcional para fazer reviver o nome de Kokaipó, conferindo-o a mim.


Curt Nimuendajú entre os Canela-Rankokameka, Aldeia do Ponto (MA), 1930.
Fonte: Curt Unckel Nimuendajú: Um capítulo alemão na tradição etnográfica brasileira, 
Elena Monteiro Welper. Rio de Janeiro: UFRJ/ PPGAS-.MN. 2002


COMO Nimuendajú FOI BATIZADO E RECEBEU SEU NOME GUARANI



Em uma fria noite de julho, toda a horda guarani estava reunida na grande curva do Rio Batalha, defronte da foz do rio Avari [interiror de São Paulo, 1905].
(…) Todos acamparam em grupos familiares no terreno em volta do rancho de Poñochí, e a fumaça das numerosas fogueirinhas pousava como um branco traço horizontal diante da muralha do mato sombrio. Do rio Batalha foi subindo uma neblina branca que, junto com o luar claro, inundava as elevações da floresta de prata.
(…) Foi quando se fez ouvir a melodia do “nãnderú-poraí” no silêncio da floresta, aquele canto estranhamente selvagem, parecendo um sinal, através do qual o Guarani procura despertar forças sobrenaturais, que se encontram dentro de seu corpo, a fim de cultivá-las para qualquer objetivo religioso ou mágico. Logo à voz forte do homem se misturou o canto claro de sua mulher e filha, acompanhado pelas rítmicas batidas retumbantes das “tacuás” e do chocalhar silvante dos “maracás”.
(…) Avacaujú [pajé e “pai” de Curt] ficou, com o chocalho na mão, calado por um momento na minha frente, como se tentasse lembrar em vão do início, depois começou subitamente com seu canto e imediatamente os demais presentes entraram. Tremendo de frio, tive que aguentar o mesmo cantarejo. Avacaujú, infelizmente, era muito meticuloso. Ele me chocalhou deslocando-se por todos os lados, cuidadosamente de um pé ao outro, parecendo querer me magnetizar com as pontas de seus dedos esticados. Manteve seus olhos fixos em mim e o feitio do seu rosto assumiu aquela expressão atormentada, estranhamente medrosa tão própria dos médicos-feiticeiros indígenas, e que dá a impressão de que ele age meio contra sua vontade, sob uma força sobrenatural. De repente, meteu as mãos dentro da canoa e me umedeceu com água no peito e na testa (…). Avacaujú também disse nesse momento algumas palavras incompreensíveis, na maneira de falar, tanto no aspirar quanto no expirar, que os médicos feiticeiros usam nos seus procedimentos. Gravei daquilo apenas as palavras carairamo (“pelo poder” ou “pela força mágica”). Depois ele recomeçou com outra melodia e devagar andamos em fila Indiana em volta da choupana (…). Chegando novamente ao nosso lugar, assumimos a mesma posição, com a cena toda se repetindo mais uma vez. Impacientemente, espiei através da parede de estacas, reparando no leste já os primeiros sinais do novo dia.
Passada uma segunda volta, Avacaujú se pôs bem diante de mim e exclamou, hesitante e excitado, mas em voz bem alta e clara:
“Muendajú-ma-nderey! — Nandereyigua nde! — Nandéva nderenoi Nimuendajú!” (“Muendajú é teu nome! — Tu fazes parte da nossa tribo! — Os Guarani te chamam Nimuendajú!”).
E então, apontando para Poñochí e sua mulher: “Cova-ma ndeangá!” (“Eis teus parentes”, quer dizer padrinhos de batizado). Depois recomeçou, para meu pavor, a cantar de cabeça erguida diante de mim, mantendo as mãos sobre a minha cabeça, abençoando-me. Ainda demorou um bom tempo até que ele, deixando os braços caírem, desse um passo para atrás, ao que o canto cessou e a cerimônia foi encerrada.
Quando o sol, cerca de meia hora depois, nasceu atrás da floresta, iluminava um novo companheiro da tribo dos Guaranis que, apesar da sua pele clara, compartilhou com eles lealmente no curso de dois anos a miséria de um povo agonizante.

Revista Mana, 7/2, Outubro de 2001, página 143, PPGAS – Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social – Museu Nacional, UFRJ)


Nimuendajú trabalhando em seu escritório